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por Fabiano Maisonnave

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O exílio no purgatório chinês

Por Vista Chinesa
20/07/12 12:03

Sala de aula restaurada da antiga Universidade Nacional Associada do Sudoeste, em Kunming, sudoeste da China (Foto Eric Vanden Bussche 14.jul.2012).

Por Eric Vanden Bussche, de Kunming (sudoeste da China)

A eclosão da guerra entre a China e o Japão, em 1937, mudou a vida dos intelectuais nos centros urbanos do norte do país. Os campi das três universidades de maior prestígio do país – Pequim, Qinghua e Nankai – sofreram com os bombardeios. A Universidade de Nankai, em Tianjin, que na época servia de epicentro do movimento estudantil antijaponês, acabou sendo reduzida a ruínas, seu prédios queimados pelas tropas invasoras.

Não havia outra alternativa senão fugir. Mas para onde? As tropas japonesas avançavam rapidamente pelos centros urbanos na costa leste, devorando o território chinês e destruindo qualquer tipo de oposição. Foi nesse contexto que 800 acadêmicos e estudantes das universidades de Pequim, Qinghua e Nankai foram forçados a seguir rumo a Kunming, capital da Província de Yunnan, no sudoeste do país, onde fundaram a Universidade Nacional Associada do Sudoeste (Xinan Lianhe Daxue), em 1938.

Hoje, a universidade não existe mais. Um ano após o final da Segunda Guerra Mundial, os acadêmicos regressaram a Pequim. Mas o Partido Comunista chinês (PC) fez questão de preservar o antigo portão da universidade e uma de suas salas de aulas, além de construir um memorial dedicado aos seus alunos. Na história oficial, essa universidade representou um marco na resistência estudantil à ocupação japonesa. Apesar dos constantes bombardeios japoneses e das condições inóspitas – na época, Yunnan era considerada uma das regiões mais atrasadas do país –, acadêmicos de maior renome da China se esforçaram em dar continuidade aos seus projetos intelectuais e científicos para promover o desenvolvimento do país.

Alunos da universidade em foto sem data tirada durante a Segunda Guerra Mundial (reprodução).

Eu não discordo dessa visão. A universidade chegou a formar futuros líderes acadêmicos e cientistas de renome, incluindo Yang Zhening e Li Zhengdao, que viriam a receber os prêmios Nobel de Física. E as condições na época realmente eram deploráveis, com constante falta de energia elétrica e racionamento de alimentos, levando estudantes famintos a brigarem por comida. Não é à toa que os professores e alunos (a maioria provenientes de famílias bem abastadas antes da guerra) enxergavam a sua estadia em Kunming como uma espécie de exílio no purgatório.

Ao caminhar pelo memorial que o governo chinês ergueu para relembrar esse episódio de sua história no antigo câmpus, porém, tive a sensação de que talvez fora deixado de lado o maior legado da universidade. Embora a instituição tenha sido fundamental em manter viva a pesquisa acadêmica durante a guerra, ela também marcou uma profunda transformação na maneira como os comunistas passaram a enxergar e lidar com a diversidade, redefinindo a China como um país multiétnico.

Durante a primeira metade do século 20, aqueles que pregavam a revolução na China nunca se preocuparam muito em levar em consideração a diversidade étnica na construção de um novo Estado nacional. Zou Rong, um dos revolucionários que lutavam para derrubar a dinastia imperial manchu no início dos anos 1900, defendia uma China livre de etnias “estrangeiras”. A China, na visão dele, deveria ser apenas dos han (etnia da maioria dos chineses) e os manchus, expulsos.

Esse sentimento foi responsável pelo massacre de milhares de manchus durante a sangrenta revolução de 1911, que inaugurou a República. Nas décadas seguintes, debates sobre questões étnicas eram marcados pela superficialidade e não tiveram grande impacto nos meios políticos, pois a nata da intelectualidade se encontrava nos centros urbanos da costa leste, regiões predominantemente han.

Isso mudou com a fuga desses acadêmicos a Yunnan durante a Segunda Guerra Mundial.  Embora Yunnan fosse parte do território chinês, a Província parecia um país estrangeiro para esses intelectuais, que sofreram um enorme choque cultural e social. Com centenas de grupos étnicos espalhados por seu terreno montanhoso, a Província cultivava laços mais fortes com o Sudeste Asiático do que com o resto da China.

Os acadêmicos que chegaram a Kunming em 1938 acreditavam que sua missão, ao estabelecer a Universidade Nacional Associada do Sudoeste, seria não apenas a de resistir à invasão de seu país, como também construir os alicerces para um futuro Estado nacional chinês moderno, livre de qualquer interferência estrangeira. Nesse sentido, ao se exiliarem em Yunnan, esses alunos e intelectuais se confrontaram com um novo desafio: como incluir os miao, yi, lolo e demais grupos étnicos, muitos dos quais se encontravam na Província há séculos, mas que não necessariamente se consideravam chineses, num Estado nacional moderno? O que significava ser “chinês”? Era possível para um miao assumir a identidade chinesa?

Esse desafio não existia nos centros urbanos como Pequim, Tianjin e Xangai. Mas, ao vivenciarem a heterogeneidade nas ruas de Kunming, esses acadêmicos se deram conta que seria necessário repensar a composição étnica do país. Nos anos seguintes, Yunnan passaria a se tornar um laboratório de construção de um Estado nacional multiétnico que se consolidaria nas décadas seguintes. Nesse sentido, as discussões e pesquisas realizadas durante a Segunda Guerra Mundial por acadêmicos como Fei Xiaotong serviram de alicerces para a formulação de políticas governamentais em relação às minorias étnicas após a tomada de poder pelo PC em 1949.

Eric Vanden Bussche é especialista em China moderna e contemporânea da Universidade Stanford (EUA). Possui mais de uma década de experiência na China. Foi professor visitante de relações Brasil-China na Universidade de Pequim e pesquisador do Instituto de História Moderna da Academia Sinica, em Taiwan. Suas áreas de pesquisa incluem nacionalismo, questões étnicas e delimitação de fronteiras da China. Sua coluna é publicada às sextas-feiras.

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A página Vista Chinesa é uma fonte de informação e análise sobre o principal parceiro econômico do Brasil. Conta com colaboradores calejados com a longa e cada vez mais frequentada ponte aérea entre os dois países e traz reportagens e análises produzidas pela Redação da Folha de S.Paulo, além de comentários do correspondente Fabiano Maisonnave, responsável pela edição.
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Comentários

  1. ligia comentou em 23/07/12 at 8:03 am

    caro eric,

    mas que aula heim?!
    poderia me mandar (para meu e-mail pessoal, caso preferir) relação de publicações suas? tenho certeza de que serão excelentes aquisições para fazer parte do acervo da biblioteca em formação!!!
    bjs,
    ligia

  2. João Carlos da Costa Filho comentou em 20/07/12 at 6:49 pm

    Fabiano, você ou algum dos leitores conhece alguma obra do Bussche, com tradução em português?

    • Vista Chinesa comentou em 24/07/12 at 8:25 am

      Caro João, escreva diretamente a ele: evbchina@hotmail.com. Abraços, Fabiano

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